13.6.11
Para que serve a literatura e a dificuldade de ensiná-la
Dizer que a
literatura não serve para nada consiste em forma primária de ironia. Não serve
para nada em se pensando em mensagem utilitária para o aqui e o agora das
exigências do mercado. O desserviço neste sentido implica um serviço bem mais
essencial.
Quando
pensamos literatura não estamos considerando qualquer produção escrita. Estamos
falando de ficção, lirismo, subjetividade, conotação. Você não destila um
conceito de um livro de literatura, mas sente-se diferente por conta desta
compreensão das coisas que se dá pelo viés do sentimento: compreender sentindo.
É uma maneira essencial de apreensão das coisas o que a literatura proporciona,
uma compreensão da vida e dos requintes e idiossincrasias de uma cultura, uma
forma especial de conhecimento, complemento da vida, nunca substituto, mas um
arranjo (estetização) que alarga nossa compreensão da realidade. Literatura é
uma mentira que amplia e ilumina a verdade das coisas. Eis, pois, um paradoxo inerente
a nossa complexa natureza.
A natureza
humana é essencialmente estética e lúdica. Nosso desejo de ficção é uma prova
cabal disto e o sonho é um exemplo inequÃvoco deste desejo de ficção. E não
sonhamos somente dormindo, não é verdade? E a organização da realidade de uma
forma compreensiva exige que se venha à clara consciência as contradições
mascaradas no caos. A verdade conceitual tem suas limitações nesta tarefa. É
quando a ficção nos salva, como já disse, organizando nossa compreensão pelos
sentidos.
Por fim, se
torna inócuo discutir para que sirva a literatura diante da verdade de que não
vivemos sem ela. A mais ferrenha ditadura não pode inibi-la como o prova nosso
recente estado de exceção, a partir dos anos 60 do século passado, mas aguçou-lhe,
efervescentemente.
Bem, este
debate veio à tona em sala-de-aula, quase que por acidente, em meio à aula de
literatura brasileira, curso de Letras, UNEMAT, Tangará da Serra, Mato Grosso,
Brasil… E por mais que eu rearranjasse minha fala ficava-me sempre a sombra
da incompreensão por conta, talvez, do pragmatismo da nossa realidade, infensa Ã
metafÃsica da arte e, também, a dificuldade que o curso oferecia. Na verdade, a
frágil convicção dos alunos já havia sido abalada pelo próprio corpo docente no
sentido da desnecessidade de estudar literatura. Guerra territorial em nome da
interdisciplinaridade. Isto, por excêntrico que possa parecer, em um curso de
Letras. Este fato, aliás, foi o principal motivador deste artigo. Ora, por que
estudá-la?
Tateei respostas:
as implicações da academia em torno da complexidade do conceito do que seja literatura,
a formação de docentes no reconhecimento do tipo de conhecimento que representa
a literatura e a necessidade de seleção do material adequado para a escola em
todos os seus nÃveis. Objeto problematizável a literatura, desde sempre, as
primeiras indagações neste sentido remontam à s primeiras produções… mas, por
mais que argumentasse permanecia um estranho vazio.
Depois,
terminada a aula, pensando, rememorando algumas falas, conclui coisa que já
sabia, cujo acontecimento significou exemplo esclarecedor: faltou-lhes, desde
sempre, a literatura em suas vidas, notadamente na escola.
Disse,
pouco acima, que não vivemos sem a literatura e agora digo que padecemos o problema
da sua ausência no próprio curso de letras.
Se, por um
lado absorvi o fracasso de minha aula, por outro acreditei no poder do tempo no
processo de redenção da literatura na escola. Diante do estudo de diferentes
áreas lá estará ela, respondendo e anunciando caminhos. E mesmo que
perspectivas reducionistas preguem a desnecessidade do seu estudo haveremos de
estudá-la como assim tem feito antropólogos, sociólogos, psicólogos,
historiadores e os profissionais da palavra do curso de letras. Este último, o
seu lugar epistemológico.
Dante Gatto, gattod@terra.com.br, Professor da UNEMAT de
Tangará da Serra
criado por gattod
00:21:25 — Arquivado em: 
